sexta-feira, 19 de março de 2010

Nunca reaja!

Marcos era um rapaz trabalhador e honesto. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Não tinha inimigos, era avesso a bebidas e qualquer tipo de entorpecentes. Namorava uma bela jovem, de nome Lúcia. Moça de boa família, discreta e caseira. Eles pretendiam se casar.
Gostavam de sair juntos nos finais de semana, aproveitando o pouco tempo que dispunham para ficarem juntos. Uma noite, voltavam a pé de um passeio. A noite estava bonita e tranqüila, ainda era cedo. Marcos sempre foi muito cuidadoso e atento e evitava ruas fechadas; mas naquele dia, ele e sua namorada haviam se distraído e entrado numa rua mais fechada e escura. Do meio das sombras, dois marginais saltaram, armados e anunciaram ao assalto:
-- Passa tudo o que tiver aí! Vai logo, ou eu e meu amigo estouramos os dois! – gritou um dos marginais.
Marcos não se abalou, apenas olhou para Lúcia e pediu para que ficasse calma e entregasse seu dinheiro e cartões.
O segundo criminoso se aproximou de Lúcia e a agarrou; então disse para o comparsa:
-- Leva o cara lá no caixa eletrônico e limpa a conta. Deixa a garota comigo como garantia. – seus olhos eram insanos e Marcos perdeu a calma ao olhar para eles.
Um misto de medo, angústia, ansiedade, impotência, raiva e ódio brotou em seu coração. Marcos não queria deixar sua namorada sozinha com aquele marginal. Não pensou em mais nada e atacou um dos assaltantes com um soco, que acabou caindo. Pulou para cima daquele que estava agarrando sua garota e gritava para que ele a soltasse. O marginal foi mais rápido e atirou três vezes no peito de Marcos, e depois fugiu sozinho. O comparsa, ainda meio atordoado, se levantou e correu para outra direção, deixando revólver para trás.
O barulho havia chamado a atenção de vizinhos. Logo um grupo de pessoas formou um círculo em volta do rapaz, que já estava morto, e olhavam inertes para a jovem que chorava desesperada.

No dia seguinte, a notícia estava nos jornais. Especialistas ressaltavam que nunca se deve reagir a um assalto, em hipótese alguma. Num dos canais, uma socióloga falou do machismo do brasileiro:
-- O Brasil teve forte influência patriarcal, oriunda dos tempos da colonização e que persistem até hoje. O homem brasileiro pensa que é um super-herói indestrutível e por conta disso, arrisca sua vida sem necessidade, na tentativa de mostrar o poder de sua masculinidade. Em situações como esta, vemos o quanto o machismo pode ser opressor ao próprio homem, que perdeu sua vida apenas para provar à sua namorada que era um “homem de verdade”.
Nas ruas, era comum ouvir das pessoas:
-- O cara foi trouxa. Quantas vezes a polícia avisa para não reagir e a í o cara vai e reage? Perdeu a vida pra salvar seu dinheiro.
Num salão de cabeleireiro:
-- Homens, são todos iguais! Não podia ficar quietinho e entregar o dinheiro. Mas, não! Tinha que dar uma de “machão” só pra mostrar pra namoradinha que era homem de verdade. Morreu de besta. Agora essa menina, bonita do jeito que é, vai logo arrumar outro.
Numa delegacia, o delegado e dois policiais, enquanto tomam café, comentavam o caso:
-- Este rapaz foi um herói. Mais um que perdeu a vida para proteger a namorada. Somos obrigados a dizer que nunca se deve reagir, até mesmo porque bem sabemos que estes marginais não hesitam em matar, mas também não é fácil pedir a um homem que assista passivamente o estupro de sua mulher. – disse o delegado.
-- Conseguimos a ficha do meliante que matou este rapaz, doutor Gomes. – disse um dos policiais. – Já estamos na caça deste vagabundo.
Dias depois, o assassino de Marcos trocou tiros com a polícia e acabou morrendo. Os policiais que atiraram no bandido foram investigados afastados, sob a acusação de terem atirado sem necessidade e com a intenção de matar. Mais de dez representantes da comissão de Direitos Humanos estavam de olho na polícia, para ver se o processo estava mesmo sendo conduzido. A família do criminoso morto recebeu uma carta de condolências e o compromisso de receber um salário mínimo, durante cinco anos, por parte de uma ONG de direitos humanos.
A mãe de Marcos nunca foi contatada por nenhum destes órgãos. Morreu de depressão alguns anos depois.

6 comentários:

Igor Bonfim disse...

Excelente conto, Lobo. Sintetizou bem a desvalorização da vida e o esforço do homem em salvar sua parceira e ainda alfinetou os direitos humanos que dão proteção e assistência a bandidos. È a nossa lamentável realidade. Incrível como mesmo perdendo a vida e salvando a da namorada o homem continua sendo criticado e rebaixado. Pra elas é tudo culpa do "patriarcado".

Impossível ler isso e não se revoltar sabendo que é verdade.

Indefinido disse...

Pois é!Elas dizem que nada é culpa do feminismo e esse desejo delas pelas coisas dos homens e por matriarcado.Porém,tudo é culpa do patriarcado.E direitos humanos é pro bandido assim como o feminismo é pra mulher.

Alex disse...

Os Direitos Humanos só deveriam valher para os Humanos Direitos.

Garçom disse...

A sociedade está cada vez mais insensível e decadente, prova disso é a falta de consideração pela atitude heróica do rapaz e dos sentimentos da família e da namorada, que ouviram pessoas chamarem de trouxa, bobo, machista e outros adjetivos, seja na rua ou em rede nacional.
Claro, tinha que aparecer uma socióloga moderninha sem ética ou traços de misericórdia ao apontar o patriarcado e machismo como causadores do óbito.Francamente existem profissionais que deveriam jogar seus canudos na lixeira..

As pessoas desta sociedade têm a cara-de-pau de exigir respeito mas é incapaz de ofertá-lo aos outros.

Y disse...

Essa narrativa ficou foda. Triste, ainda mais com esse fundo preto e quieto do blog (brincadeira! hehe), mas foda. Nao preciso nem comentar mais.

Mario disse...

A sociedade atual me enoja.

Esse é um dos melhores blogs que já vi, em relação à abrir os olhos da sociedade.