segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cap. 13 Uma pessoa muito querida

Astarus nunca tinha visitado uma vila de anões. Não eram todos os povos da raça dos anões que habitavam vilas; grande parte vivia em cavernas subterrâneas. Como o povo de João era formado por lenhadores – e não mineiros --, sua cultura era baseada no uso da madeira para os mais diversos fins. As casas da vila de Moab eram construídas com o mais duro carvalho que existia em Earthland, extraídos da Floresta Negra 31. Muitas das casas da vila eram centenárias, pois a madeira era muito resistente. Mesmo assim, os anões nunca paravam de trabalhar e sempre estavam reformando ou ampliando suas propriedades. Astarus percebeu a beleza nas construções que, apesar de rústicas, eram bem trabalhadas e convidativas.
A entrada de estranhos na vila pareceu não ter chamado a atenção de seus habitantes. Os que andavam palas ruas, trabalhavam e pouco se importaram com a presença daqueles “gigantes” (principalmente Astarus, com um metro e noventa de altura). Eram três horas da tarde e logo o dia se findaria, poucas pessoas se encontravam fora de casa naquele momento.
-- Por aqui, por favor. – disse João, com forçada cordialidade. O grupo estava diante de uma bela casa carvalho.
O batente da porta tinha pouco mais de um metro e sessenta de altura. Somente Tokotoko conseguiu passar sem se abaixar, mas sua cabeça passou bem rente. Karollahyne teve de se abaixar um pouco e Astarus dobrou os joelhos.
-- Onde você pensa que vai? – disse João para Karlim, que ia entrar na casa.
-- Que foi? Porque não posso entrar na sua casa? – disse Karlim, se esquecendo de seu estado deplorável.
-- Vá tomar um banho primeiro! – disse João, apontando para uma casinha de madeira a uns dez metros da casa.
-- Tem água quente lá? – perguntou Karlim.
-- Não! Aqui ninguém toma banho quente. – disse o anão.
-- E como fazem durante o inverno? – perguntou o elfo, curioso.
-- A gente não toma banho, ué! – disse o anão, considerando como algo óbvio. Curiosidade: o inverno em Moab dura seis meses por ano.
Karlim olhou para João e fez cara de nojo.
-- Deixa eu ir tomar meu banho... gelado. – falou Karlim, desanimado.
Logo chagaria o inverno na vila, por isso o trabalho intenso dos moradores em conseguir lenha e alimentos para estocagem.
Dentro da casa, Astarus, Karollahyne e Tokotoko se acomodaram como puderam. Apesar de pequenas, as cadeiras serviram para o ninja e a elfa, de corpos leves e magros. Astarus preferiu sentar no chão, sem constrangimento algum.
Logo que entrou na casa, João foi até o fundo e gritou com sua voz grave:
-- Vóóóóóóóóóóóóóóóó, chegueeeeeeeeeeeiiii!!!
Lá do fundo se ouviu:
-- Já vou!!!
Logo apareceu uma senhorinha ainda mais pequenina que João. Ela abraçou o neto e beijou-o com afeto. Só depois percebeu a presença de visitas na casa. Astarus e os outros a olhavam curiosos e ela os olhava com um olhar sério. Ficou alguns segundos assim e depois olhou para o neto.
-- Quem são estas pessoas, meu neto?
-- Alguns amigos, vó?
-- E porque não me disse antes? – depois dirigiu-se ao grupo. -- Devem estar famintos, não é, meus queridos. – a simpática velhinha de longos cabelos brancos, que usava um avental vermelho por cima do longo vestido amarelo escuro, sorriu com sinceridade.
Logo todos estavam comendo e conversando com a simpática avó de João. Quando Karlim chegou.
-- Ah, quer dizer que você trouxe mais um amigo? – olhou a velhinha para o elfo. – Venha, moço bonito, sente aqui conosco.
A avó de João adorava visitas e sempre tratava todos com muita cordialidade, principalmente quando eram amigos de seu querido neto. Adorava conversar e contar inúmeras histórias, acumuladas em MUITOS anos de vida.
-- Quando eu era jovem, em belo elfo, vindo de uma terra tão distante que não consigo imaginar, apareceu aqui nesta vila...
-- Ah, não, vó, de novo essa história...
-- Deixa eu contar, fica quieto! – cortou sua avó. – Então... como dizia... ele tinha os cabelos dourados como os raio do sol em dia de verão e era valente como um leão e viril como um touro...
-- Elfo valente? Viril? – disse João, olhando para Karlim, com desdém.
-- Fica quieto, João! Não interrompa sua avó! Onde está o respeito? – disse a velhinha, com grande firmeza na voz.
A simpática velhinha continuou a narrar o encontro que teve com o elfo. Apesar de não confessar, este foi o seu grande amor na vida. O elfo era um viajante, não tinha morada e não estabelecia vínculos. Este não reparara na jovem avó de João, eles nunca se falaram. Anos depois, ela se casou com o mulherengo Malacão e o amou até o seu último dia de vida. Somente depois de muitos anos de viuvez e certa “caduquice”, a velhinha passou a alimentar antigos sonhos de juventude.
-- Ai, que vergonha! Minha avó dizendo para um bando de estranhos que era apaixonada por um elfo! – lamentou João.
-- Onde foi que eu disse isso!? – disse a velhinha, indignada. – O único homem de minha vida foi o seu avô. – fez uma referência típica do costume dos anões para honrar a alma do falecido.
-- Deixa a sua avó contar mais histórias pra gente. Isso é tão romântico, vovó. – disse Karollahyne, encantada.
Depois a velhinha começou a contar histórias sobre a infância de João. Ela o criou desde pequeno. Jão, pai de João, contraiu doença venérea com uma prostituta de raça élfica e depois passou para a esposa. É claro que a família e alguns amigos que sabiam da verdade ocultaram a causa mortis. João e o resto da vila achavam que os pais haviam morrido quando o barco onde estavam afundou
-- Puxa... (snif)... que história triste... – Karollahyne ficara emocionada ao saber da forma como morreram os pais de João.
-- Não sabia que os anões daqui utilizavam barcos. Todos os que conheci odiavam água e preferiam mil vezes construir pontes a navegar. – disse Astarus, com aguda percepção.
-- É, meu jovem, você está certo. Aqui também odiamos água, mas meu filho era único. Ele adorava passear de barco junto da esposa... – lamentou a mentirosa velhinha.
-- Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh – Karollahyne desatou a chorar, emocionada com a linda história de amor.
-- Isso merece uma canção! – Karlim puxou seu alaúde e começou a dedilhar algumas notas e iniciou alguns versos:

“A mais bela história de amor,
De um jovem e enamorado casal
Pela água tragados eles foram
E um pequenino deixou
Que amado foi por sua vozinha querida...”


-- Vamos dormir, já ta tarde! – disse o anão, irritado.
-- Ei! Como ousa interromper a minha canção? – disse Karlim, novamente indignado com a falta de reconhecimento de seu (duvidoso) talento.
-- João está correto. Está tarde e temos de dormir. Amanhã partiremos com o cantar do galo. – disse o cavaleiro.
A velhinha queria que eles dormissem em sua casa, mas ela sabia que não haveria espaço para que pudessem acomodá-los adequadamente. Astarus e os outros montaram suas barracas do lado de fora. A simpática vozinha emprestou inúmeros cobertores para que eles pudessem passar a noite confortavelmente.

Nenhum comentário: