segunda-feira, 31 de maio de 2010

Cap. 8 Um dia de descanso.

Durante os dias seguintes, o grupo enfrentou muitas batalhas, ganhando muitos pontos de experiência e dinheiro. Compraram novos equipamentos numa cidade por onde passaram. Agora se sentiam bem fortes e preparados para enfrentarem inimigos maiores e mais fortes. Além das magias de cura, Karollahyne agora podia lançar poderosas descargas elétricas na cabeça dos inimigos. Karlim podia disparar cinco flechas de uma vez. Além disso, suas flechas podiam ser do tipo: envenenada, de fogo ou de gelo. Tokotoko podia disparar centenas de shurikens de uma só vez; realizar ataques com a espada e usar técnicas de fuga para o grupo. Astarus estava mais rápido, munido de uma espada muito mais poderosa. Ele podia invocar algumas criaturas. Bom, a primeira que ele conseguiu não era lá grandes coisas... uma galinha que saía bicando tudo que via pela frente, inclusive seu próprio mestre. Depois ele adquiriu um novo summon, uma menina baixinha, gorducha e dentuça, com um coelho de pelúcia na mão, que saía correndo e batendo em todo mundo. Muito eficiente esta invocação.


O primeiro grande desafio do grupo foi uma serpente guardiã da ponte do rio Anakasis, também chamado de Bomado ou a Grande Serpente Que Come Elfos, pelos índios das Florestas do Sul. Astarus e os outros precisavam atravessar da margem oriental para a ocidental, separadas por uma ponte de cento e cinqüenta metros. Enquanto atravessavam sem maiores problemas, a meio caminho, uma enorme serpente acinzentada de olhos flamejantes saiu de dentro da água e enrolou todo o seu corpo na ponte, impedindo tanto o prosseguimento da travessia como o seu retorno.

-- Aaaaaaiiiii! Que cobra mais horrorosa! – gritou Karollahyne.

-- Não se preocupe, minha querida. Vou acabar com ela agora mesmo! – Karlim disparou suas flechas de fogo, mas a dura pele da fera segurou o ataque.

-- Se não unirmos nossas forças, jamais iremos vencer esta criatura! – disse Astarus. Tokotoko assentiu com a cabeça.

Sob a liderança de Astarus, o grupo uniu suas forças e combinou poderes. A serpente deu um certo trabalho e parecia indestrutível, mas foi até o sábio cavaleiro descobrir seu ponto fraco e realizar um ataque bem feito. A criatura sumiu e um saco bem grande cheio de moedas de ouro apareceu no meio do caminho.

Os olhos de Karollahyne e Karlim brilhavam diante de tanto dinheiro ($_$). “Noooooooossaaaaaa!!!”

-- Quanto mais fortes forem nossos inimigos, mais receberemos por eles. – disse Astarus. – E parem com essa cara, vocês dois! Este dinheiro é para a nossa manutenção.

-- Hum... eu preciso comprar um novo par de botas. -- disse Karollahyne. – E o meu cabelo também precisa de cuidados... – passou a mão pelos cabelos e fez cara de nojo.

-- Eu preciso de creme para mãos. – disse Karlim.

-- Creme? Deixe de frescuras, Karlim! – censurou Astarus.

-- Não é frescura, é cuidado. Manejar este arco acaba com as minhas delicadas mãos. Eu sempre cuidei bem delas, assim como do meu corpo todo. Não é porque sou homem que devo andar descabelado. – disse Karlim, olhando com desdém para Astarus.

-- Quem é o descabelado aqui? – pergunta Astarus, passando a mão em seus cabelos curtos e bem penteados para trás. – Eu nunca ouvi falar que homem tinha de cuidar da aparência feito mulher.

-- Meu querido, nunca ouviu falar que as mulheres hoje querem homens vaidosos, sensíveis e cuidam da aparência? – disse Karollahyne. – Karlim é umelfossexual; um elfo moderno e antenado com a moda.

-- Disse tudo, Kari. – Karlim deu um sorriso triunfante.

“Patéticos” – pensaram Astarus e Tokotoko simultaneamente.

Astarus conversou com Tokotoko e ambos concordaram em seguir para o vilarejo mais próximo e comprar os utensílios de que cada um necessitasse.


Após atravessarem algumas campinas, vales, córregos, montanhas, eliminado algumas dezenas de inimigos fracos, eles avistaram um vilarejo e entraram. Primeiro descansaram e no dia seguinte, foram às compras.

Karlim comprou alguns cremes, umas roupas novas (idênticas àquelas que ele sempre usava: calça marrom, camisa branca e jaqueta verde). Foi ao salão de beleza e passou várias horas por lá.

Tokotoko comprou algumas substâncias químicas para preparar remédios, venenos e explosivos.

Astarus foi a um ferreiro para fazer reparos em suas armas e armadura. Depois disso, ele foi a uma agência de mensageiros para fazer um depósito. Retirou a senha 427 e sentou. Havia somente um caixa e o atendente parecia exausto.

-- Nossa, esse atendente é muito lerdo! Faz horas que estou aqui para postar esta cartinha pro meu netinho e até agora to aqui sentada. – disse uma senhora que estava esperando com uma senha de atendimento prioritário.

Astarus observou que sua fila só andaria depois que todos os clientes prioritários fossem atendidos. A cada um minuto, chegava alguém e retirava uma senha de atendimento prioritário. Muito curioso foi uma mulher de pouco mais de 1,60m entrando na agência com um bebê maior do que ela no colo. A mulher mal conseguia andar, mesmo assim, ainda forçava um sorriso. Ninguém falou nada, apesar de acharem aquele bebê muito grande e usando sapatos com as solas bem gastas.

Logo depois, chegou uma elfa adolescente, ainda na flor da idade. Ela também retirou senha de cliente prioritário e sentou. Ao perceber a cara feia de todos ao redor, ela disse com a maior naturalidade:

-- Que foi? Eu tenho 65 anos; se não acreditam, podem olhar meu R.G. – tirou o documento da bolsa, mas ninguém quis ver.

Astarus percebeu que não sairia mais de lá naquele dia, mas não queria deixar a vila com um saco cheio de dinheiro. O banco Roubanco havia feito uma parceria com a Empresa de Mensageiros de Barm-Sur e a partir de então todas suas agências também atenderiam como banco, o que deixou seus empregados sobrecarregados e à beira de um ataque de nervos.

O pobre atendente estava há cinco horas trabalhando incessantemente. Estava faminto e com sede, mas não podia tirar um minuto pra encher sua garrafa de água, sob ameaça de advertência, o que prejudicaria uma possível transferência para sua cidade natal. Um homem de terno, sorriso maldoso e dois pequenos chifres na cabeça, se aproximou do atendente. Era o gerente da agência. Ele pegou seu chicote e começou a dar no lombo do pobre homem.

-- Você ta muito lerdo hoje. Vamos, seu molenga! Temos de atingir nossas metas! O supervisor acabou de me enviar um e-mail me cobrando mais resultados! Você quer continuar trabalhando aqui? Então continue seu trabalho e seja mais rápido. Vai! – e continuava batendo nas costas do pobre homem.

Astarus ficou indignado com a cena, mas sabia que não tinha o direito de se intrometer. A espera era longa e não parava de chegar clientes preferenciais. Um cartaz deixava claro que gestantes, mulheres com crianças de colo, maiores de 60 anos e deficientes físicos poderiam passar na frente; porém, entre eles, ainda havia fila. Como não havia maiores definições sobre o que seria um deficiente físico, por exemplo, tinha muita gente que se dizia deficiente por faltar-lhes as pontas de um dos dedos; até mesmo carecas queriam passar na frente e diziam que calvície era deficiência. Astarus era perfeito, tanto de corpo quanto de espírito, não havia como tentar burlar a fila, caso quisesse.

Algumas horas se passaram e finalmente retomaram com a fila principal.

-- Senha 122, por favor. – chamou o atendente.

Astarus via aquilo como um treinamento mental, suportando os maiores desafios que um guerreiro poderia agüentar. E, realmente, encarar aquela fila era pior do que enfrentar muitas feras por aí.

-- Senhores clientes, sentimos em informar, mas o sistema saiu do ar e não sabemos quando irá voltar. – disse o atendente.

-- O quê?! Estamos aqui desde madrugada e agora não seremos atendidos?! Uuuuuhhhhhhh!!!!!!!!!! – começaram a vaiar e atirar todos os tipos de vegetais que você poderia imaginar.

O atendente teve de correr para não ser atingido. Aproveitou este tempinho para ir ao banheiro e comer rapidamente uma barra de cereais.

-- O que você ta fazendo aqui dentro, seu preguiçoso?! – gritou o gerente, com o chicote na mão.

-- Eu só vim comer alguma coisa, rapidinho; não dá pra fazer nada lá fora agora, senhor.

-- Como não?! Faça o serviço manualmente e depois passe para o sistema.

-- Mas aí será trabalho dobrado e terei de ficar aqui até depois do horário. – disse o atendente com cara suplicante.

-- Problema é seu, você é pago para isso! – disse o gerente.

-- Mas não recebo hora extra quando fico depois do expediente. – disse o atendente.

-- Você já ganha muito bem para isso. A sua gratificação de função (cesta básica, bem básica) substitui as horas extras. – pegou o chicote. – Agora, volte para o seu trabalho.

-- Ai, ai... sim, senhor. Estou indo! – o atendente voltou correndo para o seu posto e retomou o atendimento.

Com o atendimento manual, tudo ficou ainda mais demorado. Depósitos não poderiam ser efetuados manualmente, então Astarus teria de depender exclusivamente do sistema bancário para ser atendido.


Astarus estava tão absorto em seus pensamentos que não percebeu o momento em que três ladrões entraram na agência e anunciaram o assalto. Todos os clientes entraram em pânico e saíram correndo.


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