segunda-feira, 26 de abril de 2010

Cap. 4 A viagem pelo reino de Barm-Sur

O relógio marcou exatas seis horas e o galo do castelo cantou tão alto que podia ser ouvido num raio de cinco quilômetros.
Astarus já estava em acordado, cabelo bem penteado para trás, vestindo sua bela couraça e com a espada presa à cintura. O ninja estava fazendo meditação do lado de fora do castelo. Karlim acordou com canto do galo, mas virou paro lado e dormiu de novo. Foi preciso que Astarus derrubasse a porta para que ele levantasse. Karollahyne também fez muita hora, mas Astarus não achava correto invadir o quarto de uma dama.
-- Vamos embora! – gritou o cavaleiro para o ninja e o elfo.
-- Como assim? Não podemos partir sem Karollahyne! – disse Karlim.
-- Não estou aqui para brincadeiras, tenho uma missão a cumprir. Penso que levar uma mulher com gente só irá nos prejudicar. – disse Astarus.
Tokotoko não dizia nada, mas parecia concordar com o cavaleiro, pois sempre acenava afirmativamente com a cabeça quando este falava.
-- Nossa, que absurdo você dizer isso. – disse Karlim, indignado. – Lá na nossa vila, homens e mulheres realizam os mesmos trabalhos.
-- O que vocês fazem lá na tua vila? – perguntou Astarus.
-- Bom... – pensou Karlim -- ... na verdade a gente não tem muito serviço, não. Como somos vegetarianos, só comemos as frutas que coletamos na floresta e algumas verduras que plantamos. Arrumamos nossas casas, fazemos pequenos reparos quando necessário. Só.
-- Vocês não tem um exército?
-- Não precisamos disso. Nossa vila fica num lugar muito isolado, de difícil acesso. Nossa vida é simples e não temos nada de valor que possa atrair inimigos. Nossas construções foram erigidas há séculos por nossos ancestrais e não precisamos construir mais nada. – disse com um sorriso besta.
-- Agora entendi porque você é assim... – balbuciou Astarus.
-- O quê você disse? – perguntou Karlim.
-- Oi, getiiiiii! – Karollahyne apareceu ao fundo, saindo do castelo, onde estavam seus companheiros.
-- Eu não disse que logo ela viria. A minha Kari é muito responsável. – Karlim deu outro sorriso besta, que fez com que Astarus tivesse vontade de apertar-lhe o pescoço.
-- Fica aí, garota! Estávamos indo sozinhos, não quero problemas no caminho. – falou Astarus, com uma firmeza que deixou Karollahyne com as pernas bambas.
-- Eu não sou tão inútil quanto você pensa, ta? Eu sei magias de cura e sei que nenhum de vocês sabe, sabia? – disse a elfa, com as mãos na cintura.
-- Se a Karizinha não for, eu também não vou! – Karlim cruzou os braços e sentou no chão.
-- Vocês ganharam, podem vir. Só espero não me arrepender nunca disso. – resmungou Astarus.

Saíram da capital Matur através de uma floresta, ao norte da cidade. Atravessaram a floresta sempre na direção norte, até que encontraram um córrego. Pularam o córrego, depois viraram a leste e seguiram na direção da vila de Adina. Andaram até o pôr do sol, quando sentaram para comer alguma coisa e refrescarem-se sob a copa de uma frondosa árvore, do tipo que existiam naqueles tempos e hoje não existem mais. Uma hora depois, eles se levantaram e continuaram a caminhada. Karollahyne reclamou que seus pés estavam doendo, mas Astarus disse que eles não poderiam ficar parando sempre. Ela continuou resmungando e ele a mandou calar boca. Karollahyne começou a chorar, dizendo que não agüentava mais. Karlim ficou com pena de sua amada, a colocou nos ombros (com as coisas dela) e a carregou por várias horas.
Quando a noite estava alta, pararam para dormir. Karlim estava exausto, mas não reclamava. Karollahyne ainda reclamava de dor e cansaço. Cada um deveria montar sua própria barraca, mas Karlim acabou montando a sua e a de Karollahyne porque ela pediu, alegando estar muito cansada para isso. Ele o fez, acreditando que assim estaria ganhando pontos com ela. Astarus dormia apenas enrolado em sua capa e Tokotoko dormia no alto das árvores.
O sol estava lá no horizonte e a umidade da noite ainda não havia secado, quando Astarus levantou e ordenou que todos estivessem em pé. Tokotoko já estava acordado, sentado no alto de uma árvore, esperando pelos demais. Os elfos ainda dormiam. Como no dia anterior, Karlim teve de ser acordado (desta vez com uma caneca de água gelada na cara). Karollahyne estava dormindo e Astarus a fez levantar quando jogou um gambá dentro de sua barraca. Imediatamente, ela saiu correndo nua para o lado de fora. Ela se fez de envergonhada e tentou se cobrir com as mãos. O cavaleiro e o ninja ficaram olhando para ela sem entusiasmo; Astarus sorria sem abrir a boca, numa expressão fechada. Karlim correu para cobrir a sua amada com um lençol.
-- Nossa, meu amor, que maldade que fizeram com você.
-- Você viu, Karlim, que vergonha. Fizeram isso só para me verem peladinha. – Karollahyne tentou disfarçar um sorriso malicioso.
-- Da próxima vez, vê se levanta na hora em que eu chamar. – bradou Astarus. – E vê também se veste uma roupa. Não estamos em casa, para andarmos vestidos do jeito que queremos, não.
Karollahyne vestiu seu costumeiro maiô fio dental e calçou suas botas de salto alto. Karlim arrumou suas coisas e jogou nas costas, pois Karollahyne estava cansada demais para poder carregar.
Então saíram da floresta, subiram um morro, depois desceram por um belo vale com uma grama tão verde que não se via mais em lugar algum de Earthland. Andando pelo lado ocidental do vale, viraram a oeste e seguiram mais algumas milhas, até acharem uma estrada que seguiria por uma grande montanha. Subiram a montanha e depois desceram pela face escarpada e íngreme. Lá pararam para almoçar. Duas horas depois, voltaram a andar, então viraram a leste e subiram pela parte norte da montanha Vermelha até chegar na porção superior do monte Branco, onde a neve era a mais branca de todo o reino de Barm-Sur. Saindo da região gelada, adentraram numa mata cerrada e plana. Continuaram andando, até aparecer uma criatura gosmenta, lenta e que não tinha olhos.
-- Preparem-se, temos um inimigo. – gritou astarus, empunhando sua espada mágica. Olhou sua lista de ataques. Nenhuma magia; só ataque simples. Desferiu o ataque. Geléia havia sido acertada de raspão.
Tokotoko atirou um shuriken, Geléia desviou.
Karollahyne usou seu chicote e acerou Geléia de raspão. Karlim atirou com seu arco e matou Geléia. O bicho sumiu e ficaram algumas moedinhas no lugar. Astarus, como líder (e o mais honesto) do grupo, pegou o dinheiro e guardou consigo. Continuaram seguindo.
Após terem subido e descido mais dez montanhas, finalmente pararam para descansar.
Karlim montou a barraca de Karollahyne, como noite anterior, depois sentou, pegou seu bloco de notas e começou a escrever um poema. Karlim era considerado o melhor poeta e músico de sua vila. Quando todos estavam reunidos, em frente à fogueira, Karlim pegou seu alaúde e dedilhou algumas notas de sua nova canção:
“É preciso amaaaaaaaarrrr as pessoas como se não houvesse o amanhã!”
Karollahyne aplaudiu Karlim com todo o entusiasmo do mundo. Tokotoko não falou nada, apenas continuou sentado com suas pernas cruzadas. Astarus disfarçou a cara feia que fez, dizendo que o chá estava amargo. Quando todos se retiraram, Tokotoko se levantou, retirou dois tampões que usava nos ouvidos e foi deitar.

2 comentários:

Mario disse...

Genial essas cronicas.

By: Feon2

David disse...

Breve história do machismo

Olavo de Carvalho
Jornal da Tarde, 16 de agosto de 2001



As mulheres sempre foram exploradas pelos homens. Se há uma verdade que ninguém põe em dúvida, é essa. Dos solenes auditórios de Oxford ao programa do Faustão, do Collège de France à Banda de Ipanema, o mundo reafirma essa certeza, talvez a mais inquestionada que já passou pelo cérebro humano, se é que realmente passou por lá e não saiu direto dos úteros para as teses acadêmicas.

Não desejando me opor a tão augusta unanimidade, proponho-me aqui arrolar alguns fatos que podem reforçar, nos crentes de todos os sexos existentes e por inventar, seu sentimento de ódio ao macho heterossexual adulto, esse tipo execrável que nenhum sujeito a quem tenha acontecido a desventura de nascer no sexo masculino quer ser quando crescer.

Nosso relato começa na aurora dos tempos, em algum momento impreciso entre Neanderthal e Cro-Magnon. Nessas eras sombrias, começou a exploração da mulher. Eram tempos duros. Vivendo em tocas, as comunidades humanas eram constantemente assoladas pelos ataques das feras. Os machos, aproveitando-se de suas prerrogativas de classe dominante, logo trataram de assegurar para si os lugares mais confortáveis e seguros da ordem social: ficavam no interior das cavernas, os safados, fazendo comida para os bebês e penteando os cabelos, enquanto as pobres fêmeas, armadas tão-somente de porretes, saíam para enfrentar leões e ursos.

Quando a economia de coleta foi substituída pela agricultura e pela pecuária, novamente os homens deram uma de espertinhos, atribuindo às mulheres as tarefas mais pesadas, como a de carregar as pedras, domar os cavalos, abrir sulcos na terra com o arado, enquanto eles, os folgadinhos, ficavam em casa pintando potes e brincando de tecelagem. Coisa revoltante.

Quando os grandes impérios da antiguidade se dissolveram, cedendo lugar aos feudos perpetuamente em guerra uns com os outros, estes logo constituíram seus exércitos particulares, formados inteiramente de mulheres, enquanto os homens se abrigavam nos castelos e ali ficavam no bem-bom, curtindo os poemas que as guerreiras, nos intervalos dos combates, compunham em louvor de seus encantos varonis.

Quando alguém teve a extravagante idéia de cristianizar o mundo, tornando-se necessário para tanto enviar missionários a toda parte, onde arriscavam ser empalados pelos infiéis, esfaqueados pelos salteadores de estradas ou trucidados pelo auditório entediado com os seus sermões, foi novamente sobre as mulheres que recaiu o pesado encargo, enquanto os machos ficavam maquiavelicamente fazendo novenas ante os altares domésticos.

Idêntica exploração sofreram as infelizes por ocasião das cruzadas, onde, armadas de pesadíssimas armaduras, atravessaram os desertos para ser passadas a fio d'espada pelos mouros (ou antes, pelas mouras, já que o machismo dos sequazes de Maomé não era menor que o nosso). E as grandes navegações, então! Em demanda de ouro e diamantes para adornar os ociosos machos, bravas navegantes atravessavam os sete mares e davam combate a ferozes indígenas que, quando as comiam, – era porca miséria! – no sentido estritamente gastronômico da palavra.

Finalmente, quando o Estado moderno instituiu o recrutamento militar obrigatório, foi de mulheres que se formaram os exércitos estatais, com pena de guilhotina para as fujonas e recalcitrantes, tudo para que os homens pudessem ficar em casa lendo A Princesa de Clèves.

Há milênios, em suma, as mulheres morrem nos campos de batalha, carregam pedras, erguem edifícios, lutam com as feras, atravessam desertos, mares e florestas, sacrificando tudo por nós, os ociosos machos, aos quais não sobra nenhum desafio mais perigoso que o de sujar nossas mãozinhas nas fraldas dos nossos bebês.

Em troca do sacrifício de suas vidas, nossas heróicas defensoras não têm exigido de nós senão o direito de falar grosso em casa, de furar umas toalhas de mesa com pontas de cigarros e, eventualmente, de largar um par de meias no meio da sala para a gente catar.